Orçamento 8 min de leitura

Como fazer um orçamento mensal em Portugal (com exemplos reais)

Guia prático para controlar as despesas do mês em Portugal, com dados do INE, exemplos com salário mínimo e médio e um método simples para começar hoje.

Há uma pergunta que muitos portugueses fazem ao fim do mês: para onde foi o dinheiro? O ordenado entrou, as contas estão pagas — mas a conta bancária diz que ficou muito menos do que deveria.

Não é falta de disciplina. É falta de visibilidade. Não consegues controlar o que não consegues ver.

Este guia mostra-te como fazer um orçamento mensal realista para Portugal — com dados reais sobre o que as famílias portuguesas gastam, exemplos concretos com números, e um método que podes começar a usar hoje.


O que diz o INE sobre os gastos das famílias portuguesas

Segundo o Inquérito às Despesas das Famílias (IDEF) do INE, a despesa média anual de uma família portuguesa ronda os €27.000 por ano — cerca de €2.250 por mês.

A distribuição típica é a seguinte:

Categoria% do orçamento
Habitação, electricidade, água, gás~33%
Alimentação e bebidas~17%
Transportes~13%
Restaurantes e cafés~9%
Lazer, cultura e desporto~5%
Saúde~4%
Comunicações~3%
Outros~16%

Fonte: INE — Inquérito às Despesas das Famílias 2022/2023

O que ressalta imediatamente: habitação, comida e transportes consomem mais de 60% do orçamento da família portuguesa média. O espaço para poupar e para o lazer é muito menor do que muitas pessoas esperam.

Se quiseres uma tabela de despesas mensais com estas categorias já preenchidas, temos um modelo adaptado à realidade portuguesa.


Quanto ganha o português médio?

Antes de fazer um orçamento, precisas de saber com o que contas.

  • Salário Mínimo Nacional (2025): €870 bruto/mês → aproximadamente €775 líquido
  • Salário médio bruto em Portugal (PORDATA/INE, 2023): ~€1.540 bruto/mês → aproximadamente €1.100–1.200 líquido
  • Salário mediano: ainda mais baixo — metade dos trabalhadores portugueses ganha menos do que a média

A taxa de poupança das famílias portuguesas rondava os 8–9% do rendimento disponível em 2023, segundo o Banco de Portugal — uma das mais baixas da União Europeia.

Em termos práticos: de cada €100 que entram, menos de €9 ficam guardados.


O método dos 3 blocos (adaptado a Portugal)

O método 50/30/20 é popular internacionalmente, mas não reflecte a realidade portuguesa onde a habitação sozinha pode consumir 30–40% do rendimento líquido. Propomos uma versão adaptada — que também exploramos com mais detalhe no guia de orçamento familiar em Portugal.

Bloco 1 — Essenciais (50–60%)

Tudo o que não podes deixar de pagar: renda ou prestação, electricidade, água, gás, alimentação básica, transportes para o trabalho, seguros obrigatórios, telecomunicações.

Bloco 2 — Qualidade de vida (20–30%)

Restaurantes, lazer, roupa, viagens, subscrições (streaming, ginásio), saúde extra (dentista, óculos).

Bloco 3 — Poupança e dívida (10–20%)

Fundo de emergência, poupança para objectivos (carro, casa, reforma), amortização de créditos.

Se o Bloco 1 já consome mais de 60%, o trabalho começa aí — não no lazer.


Exemplo real: o orçamento do João (salário mínimo)

O João tem 28 anos, vive no Porto, ganha o salário mínimo e paga renda de quarto partilhado.

Rendimento líquido mensal: €775

DespesaValor
Renda (quarto partilhado)€320
Alimentação (supermercado)€150
Transportes (passe Andante)€40
Electricidade + Internet (quota)€35
Telemóvel€20
Total Essenciais€565 (73%)
Restaurantes e cafés€60
Lazer e subscrições€30
Total Qualidade de vida€90 (12%)
Poupança€60
Reserva imprevistos€60
Total Poupança€120 (15%)

Com salário mínimo no Porto, o espaço é estreito — mas €120/mês guardados dão €1.440 por ano, que é um fundo de emergência razoável passado 12 meses.


Exemplo real: o orçamento da Marta (salário médio, Lisboa)

A Marta tem 34 anos, trabalha como técnica administrativa em Lisboa, ganha o salário médio e tem carro.

Rendimento líquido mensal: €1.150

DespesaValor
Renda T1 (fora do centro)€750
Alimentação (supermercado)€200
Carro (prestação + seguro + combustível)€280
Electricidade + Água + Internet€70
Telemóvel€25
Total Essenciais€1.325 (115% do rendimento)

Aqui está o problema: os essenciais sozinhos já ultrapassam o rendimento. A habitação em Lisboa tornou isto real para dezenas de milhares de pessoas.

A Marta tem duas opções: aumentar o rendimento (segundo emprego, freelance, progressão de carreira) ou reduzir os essenciais (mudar de zona, partilhar casa, trabalho remoto que permita sair de Lisboa).

Nenhum orçamento resolve um problema estrutural — mas vê-lo em números é o primeiro passo para tomar a decisão certa.


Os gastos invisíveis mais comuns em Portugal

Há despesas que aparecem só uma vez por trimestre ou por ano — e que desfazem o orçamento de quem não as prevê:

  • IUC (Imposto Único de Circulação) — anual, varia com o veículo
  • Seguro automóvel — anual ou semestral
  • Inspeção do veículo — a cada 2 anos
  • Portagens e Via Verde — mensal, mas muitos não somam
  • Seguro de saúde — desconto no vencimento que passa despercebido
  • Manutenção do carro — imprevisível, mas previsível em média
  • Presentes e casamentos — Junho/Julho e Dezembro são meses pesados
  • Material escolar — Setembro
  • IRS — se tens retenção insuficiente ou rendimentos de trabalho independente

A regra: soma todos estes valores anuais, divide por 12, e inclui esse montante como linha fixa no orçamento mensal. Assim nunca és apanhado de surpresa.


Como começar hoje: 3 passos

Passo 1 — Regista as despesas dos últimos 30 dias

Vai ao extracto bancário e ao Multibanco. Somando por categoria, terás uma fotografia real (e muitas vezes surpreendente) do que gastas. Inclui pagamentos MB Way, referências multibanco, e qualquer coisa paga em dinheiro vivo de que te recordes.

Passo 2 — Define os teus 3 blocos

Com os números reais do passo 1, distribui as categorias pelos 3 blocos. Se os essenciais passam de 60%, assinala a vermelho e identifica o que é negociável.

Passo 3 — Acompanha o mês seguinte

Não basta fazer o orçamento — tens de comparar com a realidade. Uma vez por semana, dez minutos a verificar se estás dentro dos limites é suficiente para criar o hábito.

Para registar despesas ao longo do mês sem depender do banco, a app Para Onde Foi? foi construída exactamente para isto: registas em segundos, lês o QR dos recibos AT, e o orçamento por categoria avisa antes de passares o limite. Funciona offline, os dados ficam no teu telefone, e não precisas de ligar o banco.


Resumo

  1. A família portuguesa gasta em média 60% do orçamento em habitação, comida e transportes — o espaço para poupar é menor do que parece
  2. O salário mínimo real (€775 líquido) deixa pouca margem, mas €60–100/mês de poupança são possíveis com disciplina
  3. O método dos 3 blocos (Essenciais / Qualidade de vida / Poupança) é mais realista para Portugal do que o 50/30/20
  4. Os gastos invisíveis (IUC, seguros, presentes) desfazem orçamentos — prevê-os antecipadamente
  5. A ferramenta mais importante é aquela que vais usar — simples, rápida e que não te peça para ligar o banco


Ver também


Fontes: INE — Inquérito às Despesas das Famílias (IDEF) 2022/2023; PORDATA — Ganhos médios mensais dos trabalhadores por conta de outrem; Banco de Portugal — Taxa de poupança das famílias; Decreto-Lei n.º 99-A/2024 (Salário Mínimo Nacional 2025).

Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro ou fiscal personalizado. Os valores fiscais (IRS, IUC, deduções) podem mudar a cada ano — confirma sempre nas fontes oficiais. Escrito por André Bernardo.