Orçamento 7 min de leitura

Como fazer um orçamento com salário mínimo em Portugal

Dá para viver e poupar com o salário mínimo em Portugal? Um orçamento real com ≈€775 líquidos, onde cortar e como guardar €50-60 por mês.

Fazer um orçamento já é difícil. Fazê-lo com o salário mínimo nacional parece, à partida, impossível — a margem é curta e cada euro conta. Mas é precisamente quem tem menos folga que mais beneficia de saber, ao cêntimo, para onde vai o dinheiro.

Este artigo mostra um orçamento real com salário mínimo em Portugal: os números, onde aperta, onde se pode cortar, e como ainda assim guardar alguma coisa todos os meses.


Quanto é o salário mínimo líquido em 2026

O Salário Mínimo Nacional em 2025 é de 870 € brutos por mês. Como não há descontos para IRS a este nível de rendimento (fica isento de retenção) e a Segurança Social desconta 11%, o líquido ronda os 775 € mensais.

É com este número — não com os 870 € brutos — que se faz o orçamento. É o que entra de facto na conta.


Um orçamento real: o caso do João

O João tem 28 anos, vive no Porto, ganha o salário mínimo e divide um apartamento (quarto em casa partilhada). Aqui está o seu mês:

DespesaValor
Renda (quarto partilhado)320 €
Alimentação (supermercado)150 €
Transportes (passe Andante)40 €
Eletricidade + Internet (quota)35 €
Telemóvel20 €
Total Essenciais565 € (73%)
Restaurantes e cafés60 €
Lazer e subscrições30 €
Total Qualidade de vida90 € (12%)
Poupança60 €
Reserva para imprevistos60 €
Total Poupança120 € (15%)

Os essenciais levam 73% — muito acima dos 50% que a regra 50/30/20 sugere, o que é perfeitamente normal em Portugal. O que importa é que o João mantém os essenciais sob controlo e ainda guarda 120 € por mês.


Onde está a margem com salário mínimo

Com 775 € líquidos, a habitação é o factor decisivo. As escolhas que mais libertam orçamento:

  • Casa partilhada vs T0/T1 sozinho. A diferença entre 320 € de quarto e 550 € de renda sozinho é maior do que tudo o resto somado. É a alavanca número um.
  • Cozinhar vs comer fora. 150 € de supermercado contra 250 € se se comer fora com frequência. Aqui ganham-se facilmente 50-80 €/mês.
  • Passe vs carro. Em cidade, o passe (40 €) contra os custos de um carro (combustível + seguro + IUC + manutenção, facilmente 200 €+) muda completamente as contas.

Não há mágica: com salário mínimo, o orçamento equilibra-se sobretudo na habitação e na alimentação.


Dá mesmo para poupar?

Sim, mas com expectativas realistas. No exemplo do João, 120 €/mês de poupança dão 1 440 € ao fim de um ano — o suficiente para um fundo de emergência inicial decente.

Se o teu mês não deixa margem nenhuma, a prioridade não é poupar — é primeiro ver onde está a ir o dinheiro. Muitas vezes há 30-40 € por mês em micro-gastos invisíveis (subscrições esquecidas, cafés, compras por impulso) que, uma vez visíveis, se transformam em poupança.

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Resumo

  1. O salário mínimo (870 € brutos) dá cerca de 775 € líquidos — é com este número que se orçamenta.
  2. Com salário mínimo, os essenciais pesam 70%+ — e está tudo bem, desde que controlados.
  3. A maior alavanca é a habitação (casa partilhada), seguida da alimentação e dos transportes.
  4. É possível guardar 50-120 €/mês — o que dá um fundo de emergência inicial num ano.
  5. Quando não há margem, o primeiro passo não é cortar às cegas: é tornar visíveis os gastos invisíveis.

Ver também


Fontes: Decreto-Lei n.º 99-A/2024 (Salário Mínimo Nacional 2025); Segurança Social — taxas contributivas.

Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro ou fiscal personalizado. Os valores fiscais (IRS, IUC, deduções) podem mudar a cada ano — confirma sempre nas fontes oficiais. Escrito por André Bernardo.