Fazer um orçamento já é difícil. Fazê-lo com o salário mínimo nacional parece, à partida, impossível — a margem é curta e cada euro conta. Mas é precisamente quem tem menos folga que mais beneficia de saber, ao cêntimo, para onde vai o dinheiro.
Este artigo mostra um orçamento real com salário mínimo em Portugal: os números, onde aperta, onde se pode cortar, e como ainda assim guardar alguma coisa todos os meses.
Quanto é o salário mínimo líquido em 2026
O Salário Mínimo Nacional em 2025 é de 870 € brutos por mês. Como não há descontos para IRS a este nível de rendimento (fica isento de retenção) e a Segurança Social desconta 11%, o líquido ronda os 775 € mensais.
É com este número — não com os 870 € brutos — que se faz o orçamento. É o que entra de facto na conta.
Um orçamento real: o caso do João
O João tem 28 anos, vive no Porto, ganha o salário mínimo e divide um apartamento (quarto em casa partilhada). Aqui está o seu mês:
| Despesa | Valor |
|---|---|
| Renda (quarto partilhado) | 320 € |
| Alimentação (supermercado) | 150 € |
| Transportes (passe Andante) | 40 € |
| Eletricidade + Internet (quota) | 35 € |
| Telemóvel | 20 € |
| Total Essenciais | 565 € (73%) |
| Restaurantes e cafés | 60 € |
| Lazer e subscrições | 30 € |
| Total Qualidade de vida | 90 € (12%) |
| Poupança | 60 € |
| Reserva para imprevistos | 60 € |
| Total Poupança | 120 € (15%) |
Os essenciais levam 73% — muito acima dos 50% que a regra 50/30/20 sugere, o que é perfeitamente normal em Portugal. O que importa é que o João mantém os essenciais sob controlo e ainda guarda 120 € por mês.
Onde está a margem com salário mínimo
Com 775 € líquidos, a habitação é o factor decisivo. As escolhas que mais libertam orçamento:
- Casa partilhada vs T0/T1 sozinho. A diferença entre 320 € de quarto e 550 € de renda sozinho é maior do que tudo o resto somado. É a alavanca número um.
- Cozinhar vs comer fora. 150 € de supermercado contra 250 € se se comer fora com frequência. Aqui ganham-se facilmente 50-80 €/mês.
- Passe vs carro. Em cidade, o passe (40 €) contra os custos de um carro (combustível + seguro + IUC + manutenção, facilmente 200 €+) muda completamente as contas.
Não há mágica: com salário mínimo, o orçamento equilibra-se sobretudo na habitação e na alimentação.
Dá mesmo para poupar?
Sim, mas com expectativas realistas. No exemplo do João, 120 €/mês de poupança dão 1 440 € ao fim de um ano — o suficiente para um fundo de emergência inicial decente.
Se o teu mês não deixa margem nenhuma, a prioridade não é poupar — é primeiro ver onde está a ir o dinheiro. Muitas vezes há 30-40 € por mês em micro-gastos invisíveis (subscrições esquecidas, cafés, compras por impulso) que, uma vez visíveis, se transformam em poupança.
A app Para Onde Foi? foi pensada exactamente para quem tem pouca margem: regista cada despesa em segundos, mostra-te onde aperta, e funciona offline com os dados no teu telemóvel. É grátis para Android.
Resumo
- O salário mínimo (870 € brutos) dá cerca de 775 € líquidos — é com este número que se orçamenta.
- Com salário mínimo, os essenciais pesam 70%+ — e está tudo bem, desde que controlados.
- A maior alavanca é a habitação (casa partilhada), seguida da alimentação e dos transportes.
- É possível guardar 50-120 €/mês — o que dá um fundo de emergência inicial num ano.
- Quando não há margem, o primeiro passo não é cortar às cegas: é tornar visíveis os gastos invisíveis.
Ver também
- Regra 50/30/20 em Portugal: funciona com salário português?
- Como criar um fundo de emergência em Portugal
- Como fazer um orçamento mensal em Portugal
Fontes: Decreto-Lei n.º 99-A/2024 (Salário Mínimo Nacional 2025); Segurança Social — taxas contributivas.
Este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro ou fiscal personalizado. Os valores fiscais (IRS, IUC, deduções) podem mudar a cada ano — confirma sempre nas fontes oficiais. Escrito por André Bernardo.